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Impactos do aquecimento global nos oceanos





Nesse post foram expostos todos os prováveis impactos do aquecimento global de forma abrangente, de acordo com o último relatório do IPCC. A presente postagem busca se aprofundar nas alterações que podem ocorrer nos oceanos, com foco no entendimento do aumento da acidificação e quais as suas consequências.

Decidi falar mais sobre os oceanos uma vez que as alterações observadas neles ao longo do anos são muito perceptíveis e também por eles serem o maior termômetro da evolução do aquecimento global, como escrevi nesse post.

Fazendo uma retrospectiva dos pontos principais das alterações do oceano já documentas pelo homem, temos cinco pontos críticos. Eles estão relacionados abaixo e as informações são baseadas em estudos realizados pela EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos):

Aquecimento dos oceanos: conforme pode-se observar na figura abaixo, três análises independentes mostram que a quantidade de calor armazenada no oceano aumentou substancialmente desde a década de 1950. A quantidade de calor do oceano não só determina a temperatura da superfície do mar, mas também afeta o nível do mar e as correntes.
Temperatura da superfície do mar: As temperaturas da superfície oceânica aumentaram em todo o mundo durante o século XX. Mesmo com alguma variação ano-a-ano, o aumento geral é claro e as temperaturas da superfície do mar têm sido consistentemente maiores nas últimas três décadas do que em qualquer outro momento desde que observações confiáveis ​​começaram no final do século XIX.

Nível do mar: Quando calculada a média em todos os oceanos do mundo, o nível do mar aumentou a uma taxa de cerca de 1,5 centímetros por década desde 1880. Essa taxa acelerou nos últimos anos para mais de 2,5 centímetros por década. 

Inundações costeiras: As inundações estão se tornando mais frequentes ao longo do litoral dos EUA quando o nível do mar aumenta. Quase todos os locais medidos experimentaram um aumento nas inundações costeiras desde a década de 1950. Aqui no litoral catarinense, em Florianópolis, recentemente temos acompanhado esse fenômeno ocorrendo em diversas praias, causando diminuição progressiva das faixas de areia.

Acidificação oceânica: O oceano tornou-se mais ácido ao longo das últimas décadas devido ao aumento dos níveis de dióxido de carbono atmosférico que se dissolvem na água. A maior acidez afeta o equilíbrio de minerais na água, o que pode tornar mais difícil para certos animais marinhos construir seus esqueletos ou conchas protetoras. Na imagem abaixo pode-se notar que para todos os locais observados pelo estudo, aumentou a quantidade de CO2 dissolvido na água e por consequência diminuiu o pH medido.


Discorrendo um pouco mais sobre a capacidade de absorção de CO2 e a acidificação dos oceanos, sabe-se que cerca de 40% de todo o CO2 emitido é absorvido pelo oceano. Essa estimativa é incerta devido à dificuldade de entender o poder de absorção dos oceanos. Segundo o pesquisador Tim DeVries, os oceanógrafos sabem há décadas que o oceano atua como uma esponja para o CO2, absorvendo-o da atmosfera. Entretanto, a quantidade real de CO2 absorvida é bastante sensível a uma variedade de processos, incluindo correntes oceânicas, temperaturas e atividade biológica.

É também devido a esses motivos que o processo de absorção não é simples. A quantidade de dióxido de carbono que o oceano pode suportar depende da temperatura do oceano. Águas mais frias podem absorver mais carbono; águas mais quentes podem absorver menos. Assim, uma visão científica que prevalece é que à medida que os oceanos esquentam, eles se tornarão cada vez menos capazes de absorver dióxido de carbono. Como resultado, uma parcela cada vez maior da nossa poluição por carbono permanecerá na atmosfera, intensificando ainda mais o aquecimento global. Mas é claro que pelo menos por enquanto, os oceanos estão nos fazendo um tremendo favor, absorvendo grandes quantidades dessa poluição.

Mesmo que isso seja bom por um lado, a absorção do CO2 causa a acidificação dos oceanos, o que leva a diversos impactos negativos no ambiente aquático. Quando a água (H2O) e o gás carbônico se encontram, é formado o ácido carbônico (H2CO3) que se dissocia no mar, formando íons carbonato (CO32-) e hidrogênio (H+). O nível de acidez se dá através da quantidade de íons H+ presentes em uma solução – nesse caso, a água do mar. O pH mede o teor de H+ na água e, como a escala de pH é logarítmica, uma leve diminuição neste valor pode representar em porcentagem, variações de acidez de grandes dimensões. Dessa forma, pode-se dizer que desde a primeira revolução industrial, a acidez dos oceanos já aumentou em 30%.

Estudos preliminares apontam que a acidificação dos oceanos afeta diretamente organismos calcificadores, como alguns tipos de mariscos, algas, corais, plânctons e moluscos, dificultando sua capacidade de formar conchas, levando ao seu desaparecimento. Águas ácidas também impedem que o cimento marinho (calcário transportado pela água do mar) se forme e isso é indispensável para a fixação de corais. Os resultados mostram que não apenas os corais existentes correm risco, mas também que os recifes de coral, no futuro, podem ser erodidos mais rapidamente que crescem, levando a sua progressiva extinção.

É fato que todas essas alterações causam desequilíbrios no ambiente aquático e podem trazer graves consequências à vida marinha como a conhecemos hoje em dia. Na imagem abaixo é mostrado um coral morrendo e ele morto após o processo de branqueamento, na Ilha Lizard, na Grande Barreira de Corais da Austrália. A imagem à esquerda foi registrada em março de 2016 e mostra o coral após o branqueamento. A imagem que está à direita é de maio de 2016 e já mostra o coral depois de morrer, tendo sido todo coberto por algas marinhas. O branqueamento de corais é uma consequência da acidificação do oceano, que é acelerada pela absorção da poluição do carbono humano.


Os alertas científicos sobre a acidificação dos oceanos são relativamente recentes, e os pesquisadores estão apenas começando a estudar seus efeitos nos ecossistemas marinhos. Mesmo assim, todos os sinais indicam que, a menos que sejamos capazes de controlar e, eventualmente, eliminar as emissões de combustíveis fósseis, os organismos oceânicos se encontrarão sob pressão crescente para se adaptarem à química em mudança de seu habitat e muitas vezes não serão capazes de conseguir sobreviver.

REFERÊNCIAS:

https://www.theguardian.com/environment/climate-consensus-97-per-cent/2017/feb/16/scientists-study-ocean-absorption-of-human-carbon-pollution
https://www.epa.gov/climate-indicators/oceans
https://www.nationalgeographic.com/environment/oceans/critical-issues-ocean-acidification/
http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/acidez_oceanica_afeta_corais.html
https://www.ecycle.com.br/component/content/article/35-atitude/1382-acidificacao-dos-oceanos-um-grave-problema-para-o-planeta.html

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