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E se diminuíssemos o consumo de carne?


A agropecuária, com ênfase nas alterações do uso da terra que vem se desenvolvendo em função do aumento da população e necessidade de maiores áreas para a produção de alimentos, tem grande impacto mundial na emissão de gases estufa. Em especial aqui no Brasil, como detalhado nesse post sobre "As emissões de gases estufa no Brasil", hoje a atividade agropecuária é, de longe, a principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa no país: ela respondeu por 74% das emissões nacionais em 2016, somando as emissões diretas da agropecuária (22%) e as emissões por mudança de uso da terra (51%). Por esse motivo, o presente post busca entender qual seria o potencial de redução das emissões caso o consumo de alimentos como carne, ovos e derivados do leite fossem substituídos por outras fontes como alimentos à base de plantas com base em estudos europeus realizados.

Falando inicialmente sobre a agropecuária, ela consiste no conjunto de atividades primárias, estando diretamente associada ao cultivo de plantas (agricultura) e à criação de animais (pecuária) para o consumo humano ou para o fornecimento de matérias-primas na fabricação de roupas, medicamentos, biocombustíveis, produtos de beleza, entre outros. Esse segmento da economia é um dos elementos que compõem o Produto Interno Bruto (PIB) de um determinado lugar.

Com relação à produção de gases estufa na pecuária, o aumento do consumo de carne, ovos e derivados do leite tem aumentado as emissões de gás metano, o que preocupa os especialistas, pois os impactos desse gás são 20 vezes piores do que o gás carbônico. Estas emissões estão vinculadas a fenômenos de fermentação durante o processo de digestão dos ruminantes e também ao armazenamento e tratamento do esterco. Em numerosas regiões do mundo, principalmente nas regiões da Ásia, América Latina e África que se desenvolvem rapidamente, o volume de gado aumenta e há animais cada vez mais gordos, que ingerem um maior volume de alimentos. Isto, somado às mudanças de gestão do gado, pode provocar um aumento considerável das emissões.

Indo na contramão desse cenário, a Europa procura desenvolver alternativas para esse problema. Estudos realizados nessa região exploraram as consequências para o ambiente  com a substituição de 25-50% do consumo atual de carne, ovos e produtos lácteos dentro dos países que participam da União Europeia por alimentos à base de plantas. Os resultados mostram que a redução da produção de gado em 50% acarreta em uma redução na emissão de gases de efeito estufa da ordem de 25-40% e de nitrogênio reativo em cerca de 40%. 

Pensando não apenas em substituir a alimentação, mas também em melhorar o desempenho ambiental relacionado à pecuária, aqui no Brasil a EMBRAPA mediu as emissões de criações de rebanhos de norte a sul do Brasil durante um período de cinco anos e no final de 2016 publicou um estudo classificando as melhores práticas ambientais na pecuária. O estudo inclusive identificou que mesmo com o aumento da produção, é possível equilibrar o balanço de emissões se houver manejo adequado dos rebanhos.

Enquanto a geração de energia, os transportes e os edifícios têm sido alvos de políticas governamentais, empresas e ativistas que buscam reduzir as emissões, o impacto da produção de alimentos foi muitas vezes deixado de lado. Mas nas tendências atuais, com uma agricultura intensiva cada vez mais voltada para a criação de gado, a produção de alimentos será uma preocupação ambiental crescente e merece estudos urgentes que devem ser prioritários e postos em prática por todos os governos do mundo.

REFERÊNCIAS:

https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2017/09/29/emissoes-de-gases-estufa-por-gado-sao-11-maiores-que-o-estimado-anteriormente.htm
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0959378014000338
https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/18798638/um-novo-olhar-sobre-as-emissoes-da-pecuaria-brasileira
https://www.theguardian.com/environment/2016/mar/21/eat-less-meat-vegetarianism-dangerous-global-warming

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