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Passagem pelo furacão Irma

Nesse post contarei como foi a experiência de estar na República Dominicana durante a passagem do furacão Irma no dia 07 de setembro de 2017 e quais foram as providências tomadas para que a segurança dos hóspedes, no hotel em que estava, fosse priorizada. Será que esses fenômenos devastadores podem vir a ocorrer no Brasil um dia? Leia, descubra e tire suas conclusões.

Esse post, diferente dos demais, foge um pouco da proposta mais técnica deste blog, mas ao mesmo tempo, o conteúdo dele está vinculado ao tema geral proposto e o fato de eu ter a oportunidade de compartilhar essa experiência por tê-la vivido tão recentemente me faz pensar que estamos já vivendo as consequências prometidas devido ao aquecimento global. Neste caso, como escrevi no meu último post, o aquecimento dos oceanos tem muito a ver com a intensificação das tempestades e está diretamente ligado ao tamanho dos estragos causados por elas. O furacão Irma ocorrido em setembro de 2017, de categoria 5, foi o maior e mais forte furacão já registrado no oceano Atlântico e uma das tempestades mais fortes da história. Próximo ao olho foram registrados ventos de aproximadamente 300 km/h e 55 pessoas morreram.

Depois de fazer as explicações gerais, vamos lá para a descrição do fato. Cheguei em Punta Cana, República Dominicana, dia 02 de setembro de 2017 e a partir do dia 03 já ouvíamos falar algo sobre a formação de um furacão que possivelmente passaria próximo à costa do país. A partir do dia 04, no entanto, é que foi confirmado que a República Dominicana estava entre os locais provavelmente atingidos, inclusive em algumas projeções lá passaria o olho - suas paredes são a parte mais devastadora de um furacão. Por isso desde então, a direção do hotel passou a enviar informações diárias via boletim que era distribuído nos quartos e também ficava disponível ao ligar a televisão. A partir do dia 05, orientados pelo governo nacional, notou-se dentro do hotel, uma série de ações que visava a segurança dos hóspedes. Os cocos foram retirados das árvores e todas as cadeiras e mesas foram retiradas da parte externa, inclusive os móveis das sacadas. Além disso, chapas de madeira foram colocadas nas vidraças do lobby central e sacos de areia foram colocados em frente às entradas principais para dificultar o avanço da água, caso fosse necessário. A previsão mais pessimista mostrava que a água poderia avançar até 6 metros, o que cobriria todos os quartos térreos. Por esse motivo, os hóspedes do nível térreo e de todos os quartos mais próximos ao mar foram realocados. Ainda, foi preparado na sala de convenções do hotel, local considerado mais seguro, um abrigo com camas, água e comida para casos extremos (foto abaixo). 


No boletim do dia 05, estava inclusive recomendado que quem pudesse, que saísse do país o quanto antes. Confiando nas instalações do hotel e em todas as providências que haviam sido tomadas, decidimos ficar. O Boletim do dia 06 ainda era alarmante, atentando para o fato de que a praia e parte das instalações próximas a ela estariam fechadas desde aquele momento. Além disso, trazia as seguintes orientações: 1- colocar os documentos, coisas de valor e medicamentos em uma bolsa plástica. 2- arrumar as malas e colocá-las no banheiro. 3- como o furacão passaria durante aquela madrugada, se fosse necessário evacuar, instruções seriam enviadas aos quartos. Abaixo estão os dois últimos boletins recebidos, do dia 05 e do dia 06 de setembro de 2017.

 
O furacão passou próximo à costa da República Dominicana na madrugada entre os dias 06 e 07 de setembro de 2017. Por sorte, nos boletins das últimas horas, cerca de 5 horas antes da chegada prevista, foi possível notar que o furacão estava se afastando da costa e seu olho passou a 160 km de distância da costa da República Dominicana. Sentimos ventos um pouco mais fortes e chuva, mas nada fora do comum. Os maiores efeitos ocorreram dentro do raio de 100 km a partir do centro (olho do furacão). Abaixo é mostrado o caminho percorrido pelo furacão Irma - mais detalhes sobre como foi a passagem do furacão Irma aqui.


Abaixo a imagem de satélite do dia 07 de setembro de 2017 e em vermelho o local onde eu estava. Essas imagens podem ser visualizadas neste link da NASA.


Pois é, "nada aconteceu, que drama!" você, caro leitor, deve estar pensando. A verdade é que tivemos sorte. Era só nisso que eu pensava, sorte é a palavra certa porque tudo poderia ter acontecido. As questões que mais me chamaram atenção foram duas. A primeira é que todos os noticiários em língua inglesa estavam mais preocupados em quando e como o furacão chegaria à Florida e pouco ou quase nada era falado sobre a atual rota do furacão. A segunda é que pouco se sabia sobre a real trajetória do Irma até poucas horas antes de ocorrer, o que mostra que temos muito a evoluir com relação aos modelos de previsão.

Minha sensação durante essa semana foi de medo, tensão e também por mais que pareça estranho, curiosidade. Ao mesmo tempo, desejo que nunca tenhamos que passar por uma experiência dessa no Brasil, pois se a devastação é grande naqueles países preparados e acostumados com esses eventos, imaginem em um país totalmente incipiente nesse quesito.  

Falando nisso, será que podemos ter furacões no Brasil? Atualmente a resposta é não, apesar de alguns cientistas terem classificado o Catarina, ocorrido em 2004 em Santa Catarina, como furacão nível 1. Mas em princípio, nossa costa não apresenta os elementos básicos para a formação dos furacões. Como visto no último post, para que os furacões sejam formados, é essencial que os oceanos estejam acima de 26ºC e que haja o encontro entre massas de ar quente e frio. Hoje, o que acontece no Brasil é que as águas mais quentes situam-se na costa do nordeste, onde não há massas de ar frio que poderiam provocar furacões. Por outro lado, o sul do país apresenta esses encontros de massas de ar, mas não possui águas costeiras quentes o suficiente para provocar tais eventos. A temperatura dos oceanos no globo no dia 17 de outubro de 2017 é mostrada no mapa abaixo.


Apesar de não haver furacões no Brasil hoje, as projeções indicam que isso é uma questão de tempo. Com o aquecimento global, a média das temperaturas oceânicas também sobe, o que pode completar os requisitos básicos para a formação de furacões no sul do país. Portanto, o local mais propício a ocorrer furacões no Brasil é na região sul! Vamos cuidar do nosso planeta. Se assim continuar, só nos resta esperar para que o Brasil também seja atingido por essas criaturas amedrontantes.  

REFERÊNCIAS:

https://www.nytimes.com/interactive/2017/09/05/us/hurricane-irma-map.html
https://www.seatemperature.org/
http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/por-que-o-brasil-nao-tem-furacoes-2vmmwgoock0mn0vm9o1zy84j9
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41154909

⛈😖





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